STREET FIGHTER III: 3RD STRIKE – FIGHT FOR THE FUTURE

STREET FIGHTER III: 3RD STRIKE – FIGHT FOR THE FUTURE

Videogames, como já provado por inúmeros sites que vendem camisetas com estampas de meia-lua-pra-frente-soquinho, são facilmente lembrados pelos comandos necessários para fazer uma ação acontecer e, apesar da técnica pela técnica ter algum valor que seja, não é necessariamente o ponto da beleza dos jogos de luta (ninguém olha pra uma partida de Street Fighter e pensa “nossa como ele conseguiu apertar rápido esse botões pra soltar o hadouken!”). A beleza desse tipo de jogo é mais direcionada à aplicação da mecânica do que à simples execução da técnica em si e por ter uma estética voltada pra isso, o gênero de lutinha sempre vai ser um dos mais acessíveis. É uma simplicidade que pode ser resumida em se ter dois bonecos, duas barras de vida e quando um bate no outro aquela barra diminui até alguém ganhar – na verdade nem precisa do entendimento da barra de vida: jogos de luta conseguem ser o tipo de coisa que faz a sua avó parar na porta do quarto enquanto você joga com o seu irmão e perguntar “quem é quem aí?”; então você responde e depois de alguns instantes analisando o que está na tela da TV ela diz “nossa, mas tu só sabe apanhar” antes de sair da porta e voltar para a sala pra terminar um tapete crochê. Não é necessário explicar contextos e termos porque é algo natural apesar de todos os adornos.

É a diferença entre acertar um combo no Street Fighter e acertar um solo no Guitar Hero.

Dessa forma, talvez não seja necessário jogar mais do que um round para ver como Street Fighter III: 3rd Strike é bonito, mas é certamente necessário mais do que isso pra ver como essa beleza está presente em cada mecânica, personagem, cenário e golpe que ele tem (menos no Hugo, não há nada de beleza ali). Third Strike é um jogo que em seu menu de seleção de personagens tem um rap falando sobre si. Ele é confiante a esse ponto. Não é aquela coisa de autoconsciência dos videogames, é algo anterior a isso e é pelo menos mais sincero. Enquanto a música toca, você escolhe quem vai usar na luta e é fácil haver um estranhamento nas primeiras vezes por você só conhecer três ou quatro personagens dali – “cadê o gordo do sumô ou o indiano que solta fogo?”. Aí entra alguém na sua sala e começa a falar sobre como no Alpha 3 as coisas são mais familiares: há sim personagens novos, mas os outros do Street Fighter II ainda estão lá e, se você não gostar de jogar com eles nos modos de luta do Alpha, pode jogar em um que te dá as mesmas ferramentas do SFII. Bem, no 3rd Strike há muitas estranhezas. A maior parte dos bonecos é diferente e novo, a câmera bem mais próxima dos personagens traz uma sensação maior de urgência nas lutas e é necessário escolher qual dos três especiais do seu personagem você vai querer usar antes de começar. É um jogo cheio de pequenas coisas que o tornam diferente de qualquer outro jogo de luta (antes ou depois) e toda a estética dele mostra que ele não pretendia ser familiar pra quem estava acostumado a jogar. Inclusive, o protagonista do jogo é o Alex, um cara novo e com foco em arremessos e ataques de médio e curto alcance. Jogar com ele é completamente diferente do que jogar com os protagonistas anteriores – ele não é o que as pessoas esperavam. Alex é essencialmente o Third Strike.

Visualmente o jogo é bem bonito também, mas infelizmente não dá pra tirar uma foto e esperar que alguém entenda isso só por ela porque, apesar de continuar charmoso quando estático, a beleza aqui está no movimento. Esse jogo é simplesmente o mais bonito que sprites de Street Fighter se batendo em planos bidimensionais já conseguiu ser. Dá pra sentir o cuidado e perceber que quem fez, fez com gosto. A animação dos personagens no 3rd Strike é algo muito mais dinâmico do que nos jogos anteriores (e posteriores) e em alguns momentos conseguem alcançar um nível expressivo quase que hipnótico. Por mais que com o tempo você se acostume a ver como as roupas balançam enquanto os bonecos pulam no mesmo lugar, como a Elena se mexe nas lutas ou com o movimento do cabelo de personagens como a Ibuki, o Ken ou o Alex, essas coisas nunca vão deixar de ser bonitas. No meio das lutas ainda é capaz que você descubra movimentos que quando acontecem em um certo ritmo e sequência parece que se conectam tão naturalmente que é como se fossem feitos para serem executados exatamente do jeito que foram – o jogo se torna ainda mais bonito dependendo da sua habilidade com ele. Os cenários aqui são muito bonitos também, com menos coisas acontecendo do que nos anteriores e com um tom até contemplativo. Lugares mais isolados, menos plateia, mais você e o oponente. São pinturas detalhadas – esses sim dá pra pegar uma foto, emoldurar e botar na sala pra quando vier visita.

Mas como o FightCade já provou várias vezes, mesmo que ao invés de cenário houvesse só um fundo preto, o jogo ainda seria lindo de se assistir porque é uma beleza intrínseca.

Rindo-Kan Dojo - Street Fighter

Como não se aprende nada que se queira fazer de forma eficiente sem praticar, não se aprende a jogar Third Strike de forma eficiente sem praticar. Não adianta procurar na internet como jogar com um personagem, o máximo que vai encontrar são listas de movimentos e algumas pessoas tentando explicar como elas fazem para conseguir executar bem as sequências, mas nada disso poderá te tornar bom de fato no jogo se você não aprender a pensar dentro dele. A técnica uma hora você aprende, não é muito difícil saber que meia-lua-pra-frente-soco é hadouken, mas pensar na técnica num contexto de momento e aplicação é algo que requer um esforço muito mais real do que memorizar os padrões de tutorial da internet ou conseguir soltar o Hyper Bomb do Alex. Cada personagem tem seus três especiais e cada especial tem sua própria quantidade de barras de energia, o que te pede uma forma de jogo diferente para cada um. Escolher um especial com apenas uma barra te faz ter que economizar nos golpes EX (já que eles consomem energia quando se usa) porque senão você pode não ter como soltar o especial quando precisar. Um especial com mais barras te dá mais liberdade nesse ponto, mas normalmente esses causam menos dano ou são mais fáceis de evitar. Além disso há o “parry” que é uma forma de bloquear completamente qualquer ataque que você receber, é só apertar pra frente no exato momento em que o dano for acontecer e se sentir um divino por alguns milissegundos. É uma aposta, uma adivinhação que tem recompensa. Em Street Fighter, mesmo que você consiga defender um especial completamente, você ainda toma uma certa porcentagem do dano, o que chamam de “chip damage”. Com o parry esse dano mínimo some, você abdica da segurança da defesa para optar por apertar pra frente e correr o risco de tomar todo o dano por essa chance de bloqueio – que deixa o oponente de guarda baixa e te dá abertura pra revidar; a defesa deixou de ser completamente passiva, e esse tipo de decisão de momento é algo que consegue proporcionar situações como aquela. Se der certo ou se der errado, você assumiu a responsabilidade da ação e optou por arriscar e o jogo permitir isso é uma virtude enorme.

A todo momento Street Fighter III: 3rd Strike é um quid pro quo.

É um jogo cheio de estranhezas e que teve coragem o suficiente para buscar ser algo novo mesmo que fosse mais fácil se ater às familiaridades. Você não consegue visualizar o Power Point da reunião de apresentação do 3rd Strike enquanto joga ele, você visualiza a competição. É um jogo muito mais experimental do que se esperava e que não é tímido com as suas mudanças ou sequer se desculpa pelas peculiaridades, mas ao invés disso faz um rap sobre como é bom jogar 3rd Strike. Por tudo isso que ainda estamos aqui, quase 20 anos depois, abrindo emuladores e colocando fones de ouvido todas as noites para jogar pela internet uns com os outros. Dividindo rounds de no máximo 99 segundos, mas que mesmo que acabem antes, parecem durar muito mais. Apertando botões e tomando decisões, que trazem mais vontade para continuar sempre apertando botões e tomando decisões. No fim da noite, lá pelo terceiro round, é capaz que no meio da sua empolgação você se atrapalhe no combo e o seu oponente consiga tirar vantagem disso e então acabou. Você cai no chão, o boneco dele comemora e provavelmente há palavrões sendo ditos no Discord. Você repensa o porquê de ter perdido, coloca a ficha e aperta start de novo:

“NOW, FIGHT A NEW RIVAL!”

Street Fighter III: 3rd Strike

« Previous Post
Next Post »

Fellipe Mendes É o tipo de pessoa que tem sentimentos por videogames e cozinha pão de queijo sem deixar espaço entre eles pra depois ir separando enquanto come.