LAYERS OF FEAR

LAYERS OF FEAR

Logo que entrei no curso de Propaganda uns anos atrás, um professor falou sobre a criatividade ser uma faca de dois gumes: ela é útil, interessante, necessária e louvável, o lado ruim é que ela nem sempre está presente. Lembrei disso bastante de Agosto desse ano pra cá já que voltei a escrever de verdade. Tinha parado porque não conseguia mais terminar os textos. Eu desistia muito, deixava eles sempre incompletos. Eu tentava escrever, mas achava que eles não iam ficar tão bons quanto eu queria ou quanto os que eu lia e, no processo, eles iam perdendo a graça. Escrever ia perdendo a graça. Meus textos carregavam fardos. Eu dava uma obrigação para a criatividade e para aquele texto serem maiores do que às vezes (muitas vezes) precisavam ser e foi isso que me fez parar de escrever por um tempo.

Bloqueio Criativo, é o que eles chamam.

Layers of Fear é sobre um pintor insano que quer terminar sua última grande obra. Não tem um zumbi no canto do corredor para você atirar ou algo invisível no esgoto pra você fugir. Na verdade o jogo é tão psicodélico que não dá nem pra dizer direito se existe um monstro de verdade ali. Existe um nos moldes de Silent Hill 2, o protagonista que tem que lidar com o que ele próprio causou aos outros e a si mesmo. Antes de entender como a estrutura das salas e corredores funciona, você até se pergunta quem não está prestando a atenção o suficiente no ambiente, você ou o pintor. As salas de Layers of Fear muitas vezes te deixam com a sensação de não saber de onde veio e nem para onde vai, e pode até parecer estranho, mas dá pra dizer que é assim que funciona aquele tal de Bloqueio Criativo.

Uma outra aula que Layers of Fear me lembrou foi a de um professor de filosofia no ensino médio. Ele falou sobre medo e esperança. O medo é uma expectativa de um mal que pode acontecer. A esperança é a expectativa de que algo bom possa acontecer. Por isso eles são tão próximos. Polos opostos de uma mesma ideia. É o medo de que na próxima porta possa haver um monstro ou a esperança de que possa ser uma saída. Layers of Fear é assustador e sabe disso. Ele tem tanta certeza disso que te deixa brincar um pouco fazendo você achar que sabe o que vai acontecer, te deixa andando entre esperança e medo. Ele é ao mesmo tempo o bombeiro e o piromaníaco. Layers of Fear te faz ter lapsos de esperança e lapsos de medo e com o tempo você vai perdendo completamente o controle das coisas que vão acontecendo e percebe que nada do que você faça vai te tirar daquele lugar que fica cada vez mais surreal. Ele faz sumir e aparecer o que ele quiser, ele te faz andar por onde ele quiser. O jogo te joga tanto quanto você joga ele.

Layers of Fear não é apenas mais um jogo assustador, é inteligente, ele te bagunça. É uma das melhores experiências de terror que eu tive em muitos anos e ainda está em Early Access na Steam, ainda é incompleto. Incompleto como os textos que eu nunca consegui terminar por forçar demais ou como a obra prima do pintor que tem problemas demais. Justamente pelo fato de ele estar incompleto que eu acho que gostei mais ainda. Até onde está jogável, não dá pra terminar a pintura. Você fica exatamente como o pintor: frustrado que, por mais que queira, ainda não consegue dar um fim naquilo. Eu sei que um dia vão lançar Layers of Fear inteiro, mas acho que sendo assim, incompleto e sem o fardo de precisar ser maior do que é, ele diz muito sobre aquela sensação de não saber de onde veio e nem para onde vai.

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Publicado originalmente em Outubro de 2015 no Jogatinas de Sofá.

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Fellipe Mendes É o tipo de pessoa que tem sentimentos por videogames e cozinha pão de queijo sem deixar espaço entre eles pra depois ir separando enquanto come.