HER STORY – A VIDEO GAME ABOUT A WOMAN TALKING TO THE POLICE

HER STORY – A VIDEO GAME ABOUT A WOMAN TALKING TO THE POLICE

Há um homem em um mercado no corredor das massas e molhos, em uma terça-feira à noite. Há uma mulher próxima e um carrinho de compras na frente. Aisle começa assim. Você escolhe o que fazer dali. Cada ação escolhida te conta o resultado do que você fez e reinicia o jogo. A ideia é entrar na vida de outra pessoa por um pequeno momento, em uma curta ação que qualquer um pode fazer e ao selecionar, por exemplo, TALK TO HER, ele se aproxima da mulher e pergunta se ela se lembra dele, ela o olha estranho e se afasta seguindo em direção ao próximo corredor. O jogo reinicia. Então você percebe que esse homem que você controla provavelmente já conhece ela de algum lugar, você digita REMEMBER HER e surgem memórias de um jantar em Roma há alguns anos, dois amantes, música, Clare. Enquanto ele pensa no passado, a mulher vai embora e lá ficou o homem sozinho com suas memórias. O jogo reinicia. Um instante na vida daquela pessoa e é só isso a que você é permitido. Você pode escolher ajudar a mulher a comprar um molho, decidir apenas terminar suas compras, tirar suas roupas no meio da loja, rir, chorar, gritar, chamar a mulher para sair, ir pra casa ou dançar. Lembrar de coisas também. Algumas escolhas podem não terminar em algo satisfatório, mas certamente são um fim para o momento. Você joga e algumas ações te contam um pouco sobre esse homem que você está controlando naquele momento. Talvez alguma escolha dê um resultado interessante ou fale sobre um passado feliz, triste, dramático ou problemático e, de repente, te coloca de volta no controle do homem no corredor ponderando sobre levar ou não a massa com o carrinho de compras parado à sua frente e uma mulher ali ao lado. Só que dessa vez você sabe um pouco mais sobre ele, talvez também sobre ela. É um jogo até com um certo bom humor, tem uma anedota que se você escrever DIE ele pergunta se você quer fechar o jogo.

Aisle saiu em 1999 e foi o primeiro trabalho que Sam Barlow lançou. Ele, no meio das interações malucas ou profundas que pode causar, te desafia a participar da intimidade daquela pessoa e preencher os espaços vazios com a sua imaginação e suas experiências. Ele existe tanto no que conta quanto nas omissões. Chegou 2015 e veio Her Story. Não que o Sam Barlow tenha feito só isso, nesse meio tempo teve outros jogos incluindo Silent Hill: Origins e Silent Hill: Shattered Memories, que ele dirigiu e escreveu, e inclusive me fizeram ir atrás de Aisle, mas Her Story e Aisle carregam uma sensação de cumplicidade entre si.

O jogo começa.

MURDER é a primeira coisa que se lê ao entrar no desktop de Her Story. Bem diretão. Surgem vídeos abaixo da barra que são resultados da pesquisa por aquele termo. Cinco vídeos apenas e isso é importante para que Her Story funcione. Então você começa a checar os outros ícones da tela. Há um relógio, uma lixeira, um arquivo chamado Readme, outro chamado REALLY_Readme!!! que são meio que um “tutorial”. Há também um verificador de database, um joguinho extra escondido e um papel de parede que lembra um brasão de polícia. Desde o começo você tem acesso a qualquer vídeo do database se pesquisar pelo termo certo, por isso a limitação dos primeiros cinco resultados. Poderia ser um esquema que libera novos vídeos conforme avança, seria até uma experiência mais controlada e com uma sensação mais objetiva de recompensa, talvez justamente por isso o Barlow decidiu que essa limitação não existisse. E por mais que possa parecer que ele simplesmente recortou os vídeos e jogou tudo ali, há um certo primor no que ele fez que vai desde a forma como foi escrito e editado para que certas palavras fossem citadas junto com outras nas entrevistas, até as primeiras palavras que você encontra na busca no começo do jogo. É uma interação tão natural e um ambiente tão comum que quase não parece que há algo de mecânica ali e justamente por isso há quem diga que não deveria ser chamado de jogo, mas de “experiência narrativa”, como se isso significasse algo.

O mais legal em Her Story é a forma como tudo acontece. Assistir aos primeiros vídeos, tentar entender o contexto deles, fazer uma ou duas pesquisas até perceber que vai precisar de algo para anotar informações já que não vai conseguir lembrar de tudo, revirar uma gaveta no seu quarto, pegar aquele caderno velho da faculdade que ainda tem algumas folhas sobrando e voltar para a sua cadeira. Quando você dá play nos vídeos novamente, tudo começa. Ela fala “você acha que o Simon foi assassinado?” – A-HÁ! Você anota o nome SIMON pensando “saquei a sua, jogo”. O resultado te mostra que ele trabalhava com vidros, você anota e pesquisa VIDROS, que mostra que ele deu espelhos de presente para ela, você anota ESPELHOS, PRESENTES ou ANIVERSÁRIO, que te faz procurar mais outros termos e vão se desencadeando uma série de momentos “A-HÁS” que movem o jogo. É empolgante. Você vai descobrindo o jogo enquanto se sente muito esperto em relação a tudo que traz resultado ou repensa sobre o que não te deu respostas ainda e talvez nem dê. A maioria dos vídeos não chega a alcançar um minuto. As frases perdidas e sem contexto próprio que vão aparecendo no meio de um monte de clipes separados nunca chegam a você na ordem certa. A história começa a surgir na sua imaginação, no meio dos seus papéis que depois de alguns vídeos já estão cheios de setas e círculos ligando nomes e lugares. Enquanto você escreve cada palavra e acontecimento que é mencionado e vai montando o quebra-cabeça que é apresentado, vai se dando conta do que é o jogo.

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A mulher na sala de interrogatório está dando respostas a perguntas que você não conhece. Ela não está conversando com você, não há diálogo e aqueles vídeos foram gravados há anos, mas surge uma cumplicidade. HANNAH. Você descobre o nome. Começa a ouvir sobre a infância e adolescência, sobre relacionamentos, família, férias de verão, noites em bares. Ela até toca uma música para você. É como se essa mulher realmente fosse dando permissão de descobrir pouco a pouco mais sobre a sua intimidade. Cada termo pesquisado é uma pergunta. “SIMON” você pergunta e em algum vídeo ela responde “meu marido”. “RAPUNZEL” você escreve na barrinha e ela fala sobre como era a história favorita dela quando criança. A sinceridade com que ela se abre para nós causa estranheza e incomoda. É como alguém que conhecemos, mas não há essa intimidade na realidade e nós sabemos disso. É um sentimento angustiante até. Her Story tem sim sua própria história e seus fatos sobre ela, mas enquanto ainda não se descobriu o suficiente, se especula e especula pra caralho. Será família? Amigos imaginários? Esquizofrenia? Múltipla identidade? Um fantasma? Sim, pode ser um fantasma. Espera, um fantasma? Será que a letra daquela música era literal? Será que mais alguém morreu ou desapareceu? Em menos de uma hora essas perguntas vão se esclarecendo e deixando outras no lugar pra você resolver.

Não é um jogo de escolhas no sentido de você optar pelo que quer ver acontecendo por meio de linhas de diálogo na tela e botões correspondentes, mas é um jogo sobre você escolher no que quer acreditar e no que quer duvidar sobre o que ele apresenta. A realidade existe para nós de forma subjetiva e o jogo aproveita isso. Por isso temos dúvidas e por isso nos perguntamos se a Hannah é confiável. Podemos sim pegar agora todos os vídeos do jogo, colocar em ordem cronológica e assistir, mas quem garante que tudo o que ela disse ali é verdade? Quem garante que não há erros e confusões dela própria? O que comprova que nós entendemos o que ela diz ou o que acontece ali? Isso realmente importa? O jogo mescla um monte de temas e ideias e, com as experiências de quem está jogando, cria o seu próprio ritmo e a forma de se comunicar. Ele testa a nossa capacidade de digerir contextos e a forma como reagimos a eles, e essa é uma capacidade que fala mais de nós do que daquilo que estamos julgando. Her Story não te pede para ser preciso ou rápido nos controles. Não te pede para ser bom de mira, calcular bem os pulos ou explorar um vasto e divertido mundo de quests Pegue-10-Itens e por isso existe esse cara que diz que Her Story não é um Jogo De Verdade, já que Jogos De Verdade precisam fazer isso. Esse, provavelmente, também é o cara que reclama do fim da nona temporada de Doctor Who, que queria que o Kojima explicasse Sons of Liberty e que não come a borda da pizza.

O que Her Story pede é o seu envolvimento. Só pede que você sinceramente se permita envolver com ele e com o que ele te apresenta. Ele é um lembrete de que não é só o que absorvemos que enriquece a nossa vida e a torna interessante, somos nós mesmos. Nossas experiências que fazem isso. Nós que permitimos aos jogos, filmes, livros, músicas ou qualquer outra coisa nos impactem e interajam conosco. Nós nos permitimos envolver essas histórias e sensações em imaginação para tornar aquilo nosso por algum momento que seja. E assim como a Hannah, nossas experiências de vida nos definem. É individual. Qualquer pessoa que sentar para jogar esse jogo com o mínimo de interesse consegue se comunicar e absorver as mensagens e contextos para criar algo seu. Por isso houve tanta discussão sobre o que aconteceu ali. Her Story quebra uma série de vídeos e mostra que começo, meio e fim dependem de você. Ele se entrega para você fazer daquilo algo mais, aquela história fazendo sentido ou não, se torna real na sua mão. Você ficou dentro de uma sala com aquela mulher ouvindo histórias por uma ou duas horas até entender e encontrar a satisfação da sua verdade que não é só sobre o que aconteceu antes dela ser interrogada, mas durante e depois. As coisas ficam mais claras perto do fim, mas ainda te permitem essa visão.

Tudo termina com essa sensação íntima. Por isso que ao fim o Barlow não te cobra um entendimento, não te pede para apontar um culpado ou requer que 100% dos vídeos sejam encontrados. Ele, sob a alcunha safada de SB, simplesmente te chama em uma janela de chat depois de um tempo e pergunta: Como é que tá aí, já terminou? Só esperando o seu sim ou não para encerrar sem dar uma resposta se o que você entendeu é o que aconteceu de fato. É uma satisfação pessoal que não precisa de confirmação, e se você perguntar para o Sam Barlow o que realmente acontece no jogo, ele provavelmente vai tomar um gole de chá, olhar pra você, dar de ombros e voltar a ler um romance do Gene Wolfe.

Her Story começa com a história dela (risos), mas quando acaba, aquela história se torna um pouco sua também, mas a sua não é a única que pode complementar o jogo. Ele surge no ponto de vista que você cria sobre ele e tem tanto significado quanto é permitido ter. Quando Aisle termina a primeira vez, aparece a frase “The end of the story. The end of a story. But not the only story…” isso sumariza bem o jogo e essa é a tal cumplicidade com Her Story. Pra mim Her Story é sobre tudo isso que tá aqui nesse texto, mas assim como Aisle, ele é um jogo sobre o que nós queiramos que seja. Um drama, um romance ou Um Jogo Sobre Uma Mulher Falando Com A Polícia, e há uma certa beleza em ele permitir todos esses pontos de vista e entendimentos. Em ambos os jogos o papel é espiar um momento na vida de outra pessoa até onde ela nos dá permissão de fazer. Um jogo que lembra que nós somos todos histórias afinal, com experiências, problemas, pedaços, acontecimentos e desejos, e que tudo isso é o que nos torna quem somos. Sonder. Empatia (mas não no sentido que as pessoas usam normalmente na internet). Her Story tem o propósito de ressoar junto com quem se permite fazer parte daquilo. Ele existe nos seus clipes milimetricamente editados, existe entre eles enquanto você pensa no que digitar, existe nas suas anotações e existe em você depois que ele acaba. Pode ser um jogo feliz, estranho, incômodo, complicado, triste e esquisito, e ser tudo isso é bom. As estranhezas, dúvidas e todos os sentimentos, significados e efeitos provocados são seus. Seja na sala de interrogatório ouvindo histórias ou olhando para um pacote de nhoque em um supermercado terça à noite.

cadeira vazia em Her Story

ps: Aisle dá pra jogar por esse link (versão autorizada pelo SB)
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Fellipe Mendes É o tipo de pessoa que tem sentimentos por videogames e cozinha pão de queijo sem deixar espaço entre eles pra depois ir separando enquanto come.